Inimigas? Mulheres se unem em redes de apoio e aprendem que juntas são muito mais fortes

Mulher não é amiga de mulher. Mulher julga mulher. Mulher inveja mulher. No Dia Internacional da Mulher de 2017, este discurso não cola mais.
No que pode ser considerado um novo degrau nos movimentos feministas, as mulheres adotaram a sororidade como palavra de ordem e têm demonstrado que a empatia leva à união e, juntas, podem mais. Um dos expoentes dessa bandeira é o Vamos Juntas, projeto que nasceu de um insight da jovem jornalista Babi Souza, de 26 anos, e propôs às mulheres que andassem lado a lado nas ruas, como forma de intimidar o assédio e evitar a violência. 
— Tive a ideia por acaso, andando na rua e sentindo medo. Nunca tinha parado para pensar que eu tinha medo pelo fato de ser mulher. Meus colegas de agência podiam temer a violência urbana, mas como mulher a gente teme a violência de gênero. Entre um ônibus e outro, tive de cruzar uma praça, ainda com mais medo. Vi que várias mulheres fizeram o mesmo trajeto, mas todas sozinhas. Fiquei pensando: e se eu tivesse ficado perto de outra mulher? E se fossemos todas juntas? Certamente sentiríamos menos medo. 
Da ideia para um card, publicado em sua página pessoal no Facebook, daí para a criação de um página do Vamos Juntas, e a certeza de que milhares de mulheres sentiam o mesmo medo e queriam o mesmo acolhimento. Em 24 horas, foram 5 mil curtidas. Em duas semanas, chegava a 100 mil curtidas e Babi estava, pela primeira vez, no Encontro com Fatima Bernardes para explicar sua proposta.
Tão simples quanto eficiente, a ideia ganhou adesões de mulheres do País inteiro. Babi abriu espaço para depoimentos, e a empatia entre as participantes mostrou o quanto era furado esse negócio de que "somos inimigas". 
— A gente não pensa em se aproximar de outra mulher, fomos educadas a odiar a outra mulher, a competir, eu tenho de falar da roupa dela, da beleza dela, do cabelo, preciso julgá-la. O que eu trouxe foi esse questionamento: por que, afinal, não estávamos juntas? Vi que era uma grande demanda. Percebi que movimento não era apenas sobre irmos juntas, mas sim sobre estarmos juntas.
Outro ponto a favor do Vamos Juntas foi democratizar o discurso feminista. Essa ideia de "andarem juntas" é muito fácil de entender e ganhou adeptas até entre as mulheres que não se dizem feministas. Babi, que não era nenhuma ativista, e hoje dá palestras e tem livro sobre o tema, explica o fenômeno. 
— Uma mulher fala que não é feminista, mas se você perguntar se ela tem medo de andar sozinha na rua, se tivesse com outra mulher teria menos medo, ela vai dizer que sim. E essa união é pra quê? Em prol da igualdade! No fim, é um movimento feminista obviamente. 
Mãe, mulheres, trabalhadoras 
A ideia de as mulheres se darem as mãos para que possam caminhar juntas extrapola as ruas e ganha novos contornos. Há coletivos de apoio que abrangem todas as áreas de atuação femininas. É o caso, por exemplo, do Co.madre, que nasceu da inquietação da mãe, mulher e profissional Juliana Mariz. Ao preceber como era complicado conciliar carreira e maternidade, criou um grupo no Facebook e, imediatamente, sentiu uma empatia imensa por essas mulheres que tinham tanto a equilibrar. 
— Quando minha filha entrou na escola, alguns meses depois de eu pedir demissão, conheci mães na mesma situação que a minha. Muitas saindo das corporações, mudando de profissão, tornando-se autônomas ou empreendendo.
Para ela, alguns fatores explicam essa opção de vida: a mobilidade das grandes cidades, a falta de acolhimento das empresas, o envelhecimento produtivos das avós e alto custo da mão de obra de uma babá ou cuidadora.
— Ouvi muitos depoimentos de mães que resolveram mudar de vida ou pedir demissão em meio a uma marginal paulistana alagada tendo de ligar na escola para justificar o atraso. Ahhh isso corta o coração de qualquer mãe. As empresas, por sua vez, não pensam em flexibilizar o horário, por exemplo. Simplesmente não se importam. As avós de hoje não são como as de antigamente. Elas também trabalham, têm suas atividades. E a PEC das domésticas - que sou a favor - encareceu a mão de obra. Pagar as horas extras porque não conseguimos sair do trabalho na hora do rush para render a babá nos faz voltar ao item 1, não é? 
Nesse turbilhão, quem está ajudando essas mulheres são elas próprias, mães que criaram redes e mais redes. O Co.Madre hoje reúne cerca de 800 mulheres no grupo no Facebook. O objetivo é o mesmo desde o início: promover encontros de capacitação e acolhimento, fazer networking, divulgar conteúdos relevantes. 
— No Co.madre, não nos interessa se a mãe fez parto natural ou cesárea. Se amamentou dez meses ou deu complemento. Queremos acolher a mulher-mãe. Acolher todas, sem distinção.
O projeto também já ganhou um braço empreendedor, a Consultoria Coletiva. Uma comadre conta um desafio específico de seu negócio. O grupo junta outras comadres com expertises variadas para um brainstorm para ajudá-la.
— Demonstra a generosidade feminina em um grau máximo. A gente sempre sai emocionada. A sensação que tenho é que a comadre sai do encontro com caminhos, ideias, sugestões para tomar decisões mais acertadas. E também com o coração quentinho.
Mulheres unidas pela transformação
Grupos femininos que têm se conectado para promover auxílio mutuo, reagir ao machismo e debater questões comuns ao universo das mulheres, que vão do apoio emocional à criação de novo negócios, não passaram despercebidos pela gigante de cosméticos Natura. Na próxima edição do São Paulo Fashion Week, evento do qual a empresa voltou a participar em 2016, todos os dias a marca promoverá debates para amplificar este e outros temas. 
Karina Buhr estará no SPFW nos debates da NaturaDivulgação
Para Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional da Natura, o ambiente de uma semana de moda é favorável para discussão de novos comportamentos e padrões.  
— O tema do SPFW fala de transformação, evoluções que a gente vem passando. Buscamos um pouco de inspiração nisso e uma grande ebulição é esse tema da sororidade, uma grande rede. Este movimento tem uma conexão com a marca Natura. 
O time de palestrantes ainda não está fechado, mas Karina Buhr, cantora que é voz forte do feminismo, já está confirmada. 
Chega de Fiu Fiu, o filme 
É impossível falar em empoderamento feminino e redes de apoio no Brasil sem celebrar o Chega de Fiu Fiu. Há quatros, o movimento mudou a conversa sobre assédio de rua no Brasil, iniciando uma jornada de ressignificação sobre uma violência tão trivial quanto perversa: a cometida impunemente nos espaços públicos. Toda essa trajetória virou filme. O Think Olga, idealizador dessa revolução, comunicou nas redes sociais o lançamento do trailer do documentário #ChegadeFiuFiu.
— Hoje lançamos o trailer do documentário #ChegadeFiuFiu, produzido pela Brodagem Filmes, e financiado com a ajuda de uma das campanhas de financiamento mais bem sucedidas do Catarse até então, como mais uma ferramenta de combate ao assédio de mulheres que estão apenas exercendo seu direito inalienável de ir e vir. ‘O filme é um retrato dessa violência de gênero em um contexto ainda pouquíssimo explorado: o espaço público’, explica a diretora, Amanda Kamanchek. Traçamos um panorama completo de como esse tipo de agressão se desenha no Brasil por meio da história três mulheres de diferentes regiões do país: Rosa Luz, de Brasília (DF); Raquel Carvalho, de Salvador (BA); e Teresa Chaves, de São Paulo (SP). Também chamamos os homens para essa conversa e ouvimos especialistas que nos ajudaram a entender as engrenagens que permitiram a normalização do assédio. É um filme sensível, emocionante e profundo, feito por e para mulheres, mas capaz de fazer até as mentes mais resistentes entenderem que nosso incômodo não é mimimi quando é a nossa própria liberdade que está em jogo.


Fonte: Deborah Bresser, Do R7

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