Carta que acusa papa de heresia intensifica ‘guerra santa’ na Igreja

A guerra entre conservadores e reformistas no Vaticano ganhou um novo capítulo com uma carta assinada por dezenas de acadêmicos que a...


A guerra entre conservadores e reformistas no Vaticano ganhou um novo capítulo com uma carta assinada por dezenas de acadêmicos que acusam o papa Francisco de heresia, um dos mais graves desvios no direito canônico da Igreja Católica.
Recorrendo a uma acusação que remete à Santa Inquisição da Idade Média, os autores, católicos ultratradicionalistas, divulgaram o documento no final de abril com um objetivo claro, segundo contou à Folha o professor italiano Claudio Pierantoni, um dos 81 signatários: forçar a saída do pontífice do cargo.
A carta é a terceira de uma série produzida por acadêmicos católicos desde 2016 com críticas à atuação de Jorge Mario Bergoglio, mas até agora ela não foi endossada publicamente por nenhum cardeal ou bispo, nem mesmo pelos mais estridentes opositores.
A maioria das acusações de heresia se refere a um dos eventos mais polêmicos dos seis anos de pontificado de Francisco: o sínodo da família, realizado entre 2014 e 2015 para discutir mudanças na relação da Igreja, especialmente com os divorciados e os gays, abertura nunca digerida pela ala conservadora.
O documento “Amoris Laetitia”, fruto do encontro, sinalizou que seria possível comungar divorciados que se casaram novamente –desde que haja discernimento e uma preparação. À época, cardeais questionaram o teor do documento do papa sobre o sínodo.
Segundo vaticanistas, a oposição ao pontífice escancarada naquele encontro foi a mais clamorosa desde o concílio Vaticano 2º, realizado na primeira metade dos anos 1960 também para modernizar a igreja.
Divulgada pelo site católico dos EUA LifeSiteNews, porta-voz do conservadorismo clerical, a carta que acusa o pontífice de heresia reproduz declarações de Francisco para apontá-lo como um papa que “acredita que a atividade homossexual não é gravemente pecaminosa”, que não se opõe ao aborto e que aproximou o Vaticano de protestantes e muçulmanos.
O texto menciona a palavra homossexual 22 vezes e diz que o sexo dentro do casamento é o único aceitável. Em Roma, o entendimento é de que se trata de um documento superficial e estritamente político. Segundo o padre francês Bernard Ardura, presidente do Comitê de Ciência Histórica do Vaticano, a heresia é um dos temas mais difíceis de serem analisados –o último pontífice a enfrentar tal acusação foi João 22, no longínquo século 14.
É provável que a carta nem seja submetida à Congregação para a Doutrina da Fé, responsável por julgar os delitos contra a doutrina. De acordo com um ex-auxiliar de Francisco ainda atuante no Vaticano, trata-se de uma grande bobagem.
O que é inequívoco é a escalada das investidas contra o papa e a agenda reformista que ele implementa desde 2013, quando substituiu o conservador Bento 16 após renúncia. Além de abrir a igreja para mudanças comportamentais, Bergoglio deseja reformar a estrutura do Vaticano e aproximá-lo da vida dos fiéis.
Durante os papados de João Paulo 2º e Bento 16, temas como os tratados no sínodo da família eram considerados “princípios inegociáveis”.
Já o argentino, que renega símbolos do poder papal, como indumentárias de ouro, disse que jamais poderia julgar um gay, sinalizou que a igreja deve acolher crianças de casais do mesmo sexo e já recebeu transexuais e defensores do aborto em audiências.
Para Pierantoni, que leciona filosofia medieval na Universidade do Chile, Francisco e seu grupo estão “inclinados a apoiar a chamada ética da situação”, que invalida proibições como adultério e aborto. “O papa se sente mais livre para agir e falar como uma pessoa qualquer, e ainda seguindo uma agenda política e ideológica. Ele diminuiu muito sua credibilidade”, afirmou.
Indagado se a mensagem aos bispos, da qual é signatário, não sugere um golpe contra o argentino, Pierantoni preferiu não responder.
Na carta, também há acusações de que o argentino protege subordinados acusados de abuso sexual, outro tema que agita o Vaticano. Na última quinta-feira (9), o papa publicou um decreto que obriga religiosos a denunciarem casos do tipo, sob pena de também serem responsabilizados.
A maneira de enfrentar os abusos também provoca celeumas. Uma das principais discordâncias tornou-se pública no mês passado, quando outro site conservador americano publicou um texto escrito pelo papa emérito Bento 16 sobre a crise de pedofilia entre os clérigos.
Para Joseph Ratzinger, 92, a revolução sexual nos anos 1960 resultou nos abusos dentro da Igreja, pois a “liberdade sexual total” provocou um colapso mental. “Ratzinger indica a ética da situação como o mais perigoso erro da teologia moral dos últimos 60 anos. É justamente esse erro que inspira as heresias que contestamos ao papa”, diz Pierantoni.
“A carta é muito superficial e ignora os resultados do sínodo da família”, disse o padre Giuseppe Ruggieri, professor emérito de teologia da Universidade de Catania, na Sicília, e defensor da agenda de Bergoglio.
Ruggieri afirma que os ataques da direita conservadora com raízes na igreja são organizados e cita Steve Bannon –ex-estrategista de Donald Trump, atualmente criando raízes entre os partidos conservadores europeus– como um dos “encorajadores” do movimento contra o papa.
Francisco nunca respondeu aos detratores –um auxiliar disse que ele prefere falar pelo silêncio. Na semana passada, o pontífice comentou que estes são tempos em que os insultos se tornaram normais. “Um político insulta o outro, um vizinho insulta o outro, também nas famílias um insulta o outro. Não sei dizer se há uma cultura do insulto, mas o insulto é uma arma na mão.”

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