Vitória de Bolsonaro foi do eleitor empoderado pelo celular, diz livro

Como explicar a vitória de Jair Bolsonaro em 2018? Talvez com base num paradoxo. A única coisa constante da eleição presidencial fo...




Como explicar a vitória de Jair Bolsonaro em 2018? Talvez com base num paradoxo. A única coisa constante da eleição presidencial foi sua inconstância.

Ou, como escrevem Mauricio Moura e Juliano Corbellini no recém-lançado livro “A Eleição Disruptiva: Por Que Bolsonaro Venceu” (editora Record): “Essa eleição foi cercada de muitos elementos atípicos. Aliás, o atípico foi a constante”.

Moura, fundador da empresa de pesquisas Ideia Big Data, e Corbellini, cientista político e consultor de marketing, tentam explicar na obra como a moeda caiu em pé. Em outras palavras, como uma conjunção de fatores altamente improváveis levou a um dos maiores sustos eleitorais desde a redemocratização.

Afinal, todas as regras consagradas da política foram rasgadas, uma a uma, pelo capitão reformado do Exército. Mesmo assim ele venceu, e com certa facilidade.

“Não conseguiremos entender a polissêmica eleição de Bolsonaro em 2018 com um raciocínio tipicamente ‘moderno’ e linear”, dizem os autores.
Foram diversos os elementos a impulsionar o então candidato. Nesse processo, Bolsonaro teve sorte e competência. O ambiente político no país se alinhou às ideias que ele sempre defendeu, e no momento certo.
Na miríade de fatores que levaram ao surpreendente resultado, Moura e Corbellini privilegiam três: a rejeição à política tradicional, que Bolsonaro encarnou melhor que seus adversários; a crise na segurança pública, bandeira histórica dele; e a nova força das redes sociais, a que o candidato foi forçado a recorrer, dado que praticamente não tinha tempo de TV.”

Acima de tudo, essa era a eleição dos eleitores indignados e empoderados pelo telefone celular”, diz o livro.

Exemplo eloquente é uma pesquisa da Ideia Big Data de junho de 2018 mostrando que 52,8% dos entrevistados manifestavam a vontade de votar em um candidato à Presidência de fora da política. Na mesma época em 2014, esse índice era de 24%.

Como é notório, contribuiu para esse clima o chamado “Partido da Lava Jato”, um sentimento difuso da população de que o escândalo revelado em Curitiba exigia que as legendas tradicionais fossem punidas.

Merece um lugar na galeria dos maiores erros políticos da história a tentativa de Aécio Neves e do PSDB de encarnar esse sentimento. “A pauta ética é como um bumerangue. Se não for usada com cuidado, volta e atinge quem atira”, diz o livro.

Com o clima favorável, Bolsonaro pôde ser quem é, sem se preocupar em moderar o discurso ou fazer acenos ao centro. Como dizem os autores, ele usou e abusou de todo o seu enxoval politicamente incorreto.
Numa imagem interessante, o livro compara as performances televisivas do candidato a apitos de cachorro. Enquanto a elite progressista ridicularizava a forma desengonçada e amadora de Bolsonaro em frente às câmeras, grande parte da população ouvia outra coisa.

Ali estava um candidato autêntico e que não se rendia a marquetagens. Muito dessa estratégia foi mantida pelo presidente após sua posse.
E houve, claro, a facada, outro elemento fundamental para a vitória de Bolsonaro. Fundamental, mas não necessariamente definidor, argumentam os autores. “Nossa hipótese é que, bem antes desse episódio [atentado], as condições que apontavam para a vitória de Bolsonaro já estavam se constituindo”, declaram.

De fato, é algo simplificador atribuir ao atentado a vitória, algo que, na verdade, interessa mais aos derrotados. Não é por outro motivo que Geraldo Alckmin culpou o ato criminoso pela sua derrota, e não problemas em sua própria candidatura.

Da mesma forma, o livro relativiza bastante o impacto da divulgação de fake news por apoiadores do candidato, parte expressiva delas pelas redes sociais. Para os autores, “isolar o efeito de uma notícia falsa na decisão de voto é um exercício possível, mas de improvável conclusão”.

A mensagem que o livro passa acaba sendo reconfortante para os humilhados nas urnas.

Em outubro de 2018, o que se viu foi um frenesi popular, um comportamento que os autores chamam de “extrarracional”. Não havia muito o que fazer para evitar a vitória de Bolsonaro, por mais que seus adversários tentassem.

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